FAPS 2015 - Dayane Celestino de Almeida

FAPS – Fórum de Atualização em Pesquisas Semióticas
[30/10/2015, 14h00, prédio de Letras USP, sala 261] *** ANULADO em razão de ponto facultativo na USP ***

O problema da variação intrafalante para a atribuição de autoria textual em contextos forenses e a análise do plano do conteúdo como solução

A pergunta “Quem escreveu este texto?” emerge quando existem textos anônimos, assinados por pseudônimos ou com autoria disputada. Saber quem escreveu um texto ou conjunto de textos tem ajudado a solucionar crimes ou dirimir contendas judiciais, contextos em que trabalha o linguista forense, tentando depreender estilos linguísticos relacionados a grupos sociais (elaboração de perfis sociolinguísticos) ou a um indivíduos (atribuição de autoria), sendo esta última o objeto desta apresentação. A análise linguística pode ajudar a determinar a autoria de textos como cartas de suicídio, cartas e mensagens anônimas (em caso de sequestros, chantagens, ameaças, etc.), websites com conteúdo ilegal, entre outros.

Um problema para a atribuição de autoria nos contextos forenses é a noção de variação intrafalante, segundo a qual “não existe falante de estilo único” (LABOV, 2008:243). De fato, tem sido demonstrado pela Sociolinguística que um mesmo indivíduo utiliza a língua de modo diferente, dependendo de vários fatores, como tema, situação, destinatário, registro, gênero textual, etc. (LABOV, 1966, 2008; BELL, 1984; SCHILLING-ESTES, 2001; etc.). Assim, como determinar que alguém é o autor de vários textos redigidos em situações diferentes e destinados a interlocutores diferentes? Essa interrogação emerge particularmente no contexto forense, porque nele os textos recolhidos para comparação são frequentemente de naturezas distintas. Por exemplo, o texto de autoria questionada pode ser uma carta de suicídio e os textos coletados para comparar podem diferir quanto ao propósito, grau de formalidade, destinatários, gênero, etc. É improvável que se consigam para comparação textos que foram escritos no mesmo tom informal que a carta de autoria questionada e muito menos provável é que se consigam outras cartas de suicídio do mesmo autor.

Uma solução nesses casos seria encontrar elementos que não variem (ou que variem menos). Assim, nossa pesquisa de Doutorado trabalhou com a hipótese de que tais elementos encontram-se no plano do conteúdo, já que os trabalhos existentes em atribuição de autoria concentram-se nos elementos superficiais do texto, no plano da expressão (HJELMSLEV, 2003[1943]). Um problema em se considerar apenas esses elementos é o fato de que os discursos são textualizados em níveis que vão do mais abstrato ao mais concreto, de modo que o nível da manifestação (o plano da expressão) é o mais concreto e, portanto, o mais “numeroso”, o que significa que uma ou poucas categorias de um nível mais profundo podem ser manifestadas por um leque muito grande de opções. Quanto mais opções há, maior a possibilidade de variação. A variação intrafalante é, pois, abundante no plano da expressão.

Partindo dessas dificuldades, aventamos a seguinte hipótese: a variação intrafalante tende a ser menor na medida em que se “desce” para os níveis mais “profundos” do plano do conteúdo, já que quanto mais abstrato/simples o nível neste plano, menos opções de escolha há para os autores, o que pode resultar em maior chance de que eles façam sempre as mesmas escolhas, de que os textos sejam organizados segundo as mesmas categorias. Assim, se dois indivíduos escolhem recorrentemente as mesmas opções, mas diferentemente um do outro, isso significa que a opção de cada um tem grande poder discriminatório.

Ressaltamos que no cerne das investigações de autoria está a noção de estilo. Greimas e Courtés (2008[1979]) definem como estilísticos aqueles “fatos estruturais pertencentes tanto à forma do conteúdo de um discurso quanto aqueles pertencentes à forma da expressão”. Para Fiorin (2008:97), estilo é “um conjunto global de traços recorrentes do plano do conteúdo e do plano da expressão, que produzem um efeito de sentido de identidade. Configuram um ethos discursivo, ou seja, uma imagem do enunciador”. Estilo é, então, recorrência e distintividade, tanto no plano da expressão quanto no do conteúdo (FIORIN, 2008; DISCINI, 2009, 2013). Assim, aí está mais uma motivação para incorporar a análise do plano do conteúdo aos estudos de autoria. Se a língua é expressão e conteúdo, o estilo deve ser observado nos dois planos.

Para saber se as categorias examinadas em análises semióticas podem realmente distinguir autores, realizamos um estudo com 4 autores, em que cada um contribuiu com 20 textos, divididos em dois grupos de 10 (Autor1A, Autor1B, Autor 2A, Autor2B, e assim por diante). A hipótese era a de que os textos dos grupos A e B de um mesmo autor seriam mais semelhantes entre si do que comparativamente aos subconjuntos de textos dos outros autores, quanto a elementos do plano do conteúdo. As semelhanças e diferenças foram medidas quantitativamente, realizando-se a análise semiótica no software Corpus Tool que gerou automaticamente tags para permitir a contagem de dados. A seguir, aplicamos o Coeficiente de Jaccard (medida estatística que compara semelhanças e diferenças entre amostras). Os resultados corroboram a hipótese aventada e indicam que as categorias semióticas podem ser utilizadas com sucesso em casos de autoria questionada.

 


dayane_almeidaDayane Celestino de Almeida possui Mestrado e Doutorado em Semiótica e Linguística Geral pela Universidade de São Paulo. É professora de Interpretação e Produção de Textos e Métodos de Pesquisa na Universidade Paulista. Seus interesses incluem Teoria e Análise Linguística, com ênfase em Sociolinguística e Semiótica Discursiva, atuando principalmente nos seguintes temas: Semiótica e Poesia, Linguística e Poesia, Sociolinguística e Estilo, Semiótica e Estilo, Variação Linguística e Língua Portuguesa. Mais recentemente, tem se interessado pela Linguística Forense, principalmente pela análise de autoria textual em contextos criminais e judiciais, tema de sua tese de Doutorado. Suas publicações incluem, entre muitos artigos científicos e capítulos de livros, a obra Semiótica da poesia: exercícios práticos, organizada em colaboração com I. C. Lopes (São Paulo: Annablume, 2011).

 


[Sexta-feira, 30 de outubro de 2015.
Das 14h00 às 15h30.]  *** ANULADO em razão de ponto facultativo na USP ***
Prédio de Letras USP, sala 261.
Av. Prof. Luciano Gualberto, 403
Cidade Universitária – São Paulo - SP

A palestra é aberta a todos os interessados. Não é necessário inscrever-se previamente.

 

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